domingo, 13 de maio de 2012

Dia das mães, dia de homenagens



Como hoje o dia é dedicado às mães do mundo inteiro, aproveito a oportunidade e apresento-lhes minhas três mães: a que me deu a vida, que me trouxe à luz, Zeneida (mulher que pacientemente com o seu espírito de mulher guerreira e temente a Deus suportou galhardamente os infortúnios que a vida lhe reservou); Munda (Raimunda) que cuidou de mim e dos meus irmãos quando mamãe ficou viúva e não pôde dar aos seis filhos a necessária assistência devido a depressão que a acometeu com a morte do meu pai; e  dona Maria, minha sogra, que me deu muitos ensinamentos com relação a uma convivência feliz no casamento e que me adotou  como uma verdadeira filha. A elas que já partiram para uma outra vida, a vida celestial, dedico-lhes o meu eterno amor. No caso particular de minha sogra, manifesto minha homenagem através de uma forma prazerosa e engraçada que fui buscar no opúsculo intitulado Histórias de Almeidinha, com que meu cunhado, Carlos Alberto, presenteou sua mãe e minha sogra por ocasião dos seus noventa anos e cuja capa é mostrada na foto abaixo. Pouca gente conhecia o lado humorística dela, das coisas engraçadas que dizia, das gafes que inocentemente, sem nenhuma maldade ela cometia. Relato duas gafes contadas por Carlos Alberto as quais serviram de muita gozação e de muitas risadas por parte de seus familiares.

                                                       O TIRO NA IGREJA
            
             Mamãe e Ozenir (minha esposa) estavam assistindo à missa do final da tarde no interior da igreja do Socorro. A igreja estava cheia e elas estavam em pé, atrás da última fileira de bancos. Eis que, em um dado momento, mamãe ouviu um som, tipo um grito lamentoso. Assustada, imediatamente mamãe gritou: “É tiro!”, e saiu correndo na direção da praça. Ozenir, sem entender o que houve, saiu também correndo atrás dela. Rapidamente, elas notaram que ninguém as seguia. Elas estavam correndo sozinhas. Foi então que mamãe parou, virou-se para Ozenir e falou ofegantemente: “Você não ouviu?... Para mim era um tiro”. Ozenir, então, rindo sem controle, disse-lhe que foi apenas um pobre velhinho que sofreu um ataque de epilepsia, caiu do banco e ficou se contorcendo de dor. Após a explicação, não deu mais para elas voltarem para a igreja e seguiram rindo, baixinho, para casa.
                                                 
                                                         A TROUXA

                No final de dezembro de 1973, meus pais, Ozenir, Jorge Luiz, Lou e Zé  Maria foram a Recife assistir à minha formatura. Ficamos todos no apartamento de Lilia, minha cunhada. Nesse tempo, eu já estava casado com Ozenir e ela estava morando com meus pais em Juazeiro. Ficou planejado que, após a formatura, todos voltariam para Juazeiro  e Ozenir ficaria morando comigo em Recife. Mas não deu certo, e Ozenir teve que voltar.
                 Então, estávamos todos na Rodoviária de Recife, naquele clima de tristeza, normal de despedida, mas agravado pelo fato de que os planos não tinham dado certo. Não tínhamos conseguido passagem no mesmo ônibus para todos e papai teve que ficar para ir em outro ônibus, que sairia duas horas depois. O quadro era esse: mamãe, Ozenir, Lou, Jorge Luiz e Zé Maria no interior do ônibus. Ozenir numa cadeira da janela numa indisfarçável tristeza, mamãe noutra cadeira, de frente, também na janela, triste e preocupada porque papai viajaria sozinho. Eu e papai ficamos na plataforma de embarque, conversando e aguardando a saída do ônibus, junto com várias outras pessoas. Papai ficou de levar como bagagem apenas um saco de pano com algumas peças dentro. E como sempre foi despreocupado, o saco estava no chão, ao seu lado. Mamãe, temendo que papai esquecesse  volume, gritou de dentro do ônibus: “Zeca segura a trouxa”. E, achando que papai não tinha ouvido, gritou: “Ô, Zeca, não esquece de trazer a trouxa”.  Foi uma gargalhada geral, por parte dos passageiros e das pessoas que estavam perto de nós na plataforma de embarque, pois em Pernambuco, como no Ceará, trouxa além de ser um saco de roupas, é também mais uma denominação do órgão genital masculino.

Carlos Alberto tem catalogada quase uma centena de “causos” com dona Maria Almeida e no opúsculo de estréia ele escreveu o seguinte:

Neste dia em que comemoramos os noventa anos de idade de mamãe, quero prestar-lhe uma homenagem diferente. Resolvi relatar algumas das noventas historinhas curiosas que têm mamãe como protagonista e as quais eu presenciei ou ouvi contar. Em todas essas passagens, podemos identificar traços característicos de sua personalidade. Fazendo uso da intimidade de que possuo como filho, posso enfatizar essas características que somadas às suas infinitas qualidades, constituem um conjunto harmonioso que a torna uma pessoa extremamente especial. Procurei desde o início achar uma palavra que resumisse todas as suas qualidades e características, mas não encontrei. Portanto, para mim ela é simplesmente Especial.
            Mamãe, além de ser a melhor mãe do mundo, é também muito boa como esposa, avó, bisavó, sogra, cunhada e amiga. É amorosa, dedicada, compreensiva, tolerante, pacificadora, conselheira, atenciosa, tem boa conversa, religiosa, trabalhadeira, boa cozinheira, pessimista, assustada, não gosta de festa, não gosta de fazer aniversário, não gosta de viajar de carro, tem medo de água, gosta de  novela, sempre quis ter na casa (sendo uma para uso e uma de enfeite) duas cozinhas, dois banheiros, duas salas, gosta de fazer renovação e gosta de broa.
             Nas histórias a seguir podemos identificar várias dessas suas características.
Na  sequência: eu com mamãe, Munda e dona Maria.



domingo, 6 de maio de 2012

Mês de maio, mês de Maria

06.05.2012


No final de cada mês elaboro um roteiro dos assuntos que irei abordar nas quatro ou cinco semanas do mês seguinte. E como sou uma fervorosa devota de Nossa Senhora, e também por que Maio é mês que lhe é dedicado aproveito o momento para expressar o meu sentimento de gratidão, confiança e de fidelidade. Ela é exaltada como a Mãe de Jesus, filho de Deus, e também de todos nós. A sua presença é importante em nossa vida para rogar a seu filho por todos nós. A imagem que tenho na memória já distorcida pelo tempo, me traz pequenos toques de como surgiu essa minha grande afeição à Maria Santíssima. Em nossa casa rezávamos diariamente o terço em família. Meu pai e minha mãe se revezavam, cada um recitava um mistério e nós os acompanhávamos. Depois cada um fazia o oferecimento, com exceção de minha irmã caçula, Analuce, que por ser bem pequenina não tinha condições ainda de um colóquio com Deus, pois não tinha noção do que devia pedir. Depois pedíamos a bênção aos nossos pais e nos recolhíamos. Sempre fui muito tímida, mas gostava de observar o que minha mãe fazia. E antes de me recolher, a beijava e abraçava, fazia o mesmo com o meu pai, mas observava nas mãos de mamãe um pequeno livrinho. Esse livrinho depois que aprendi a ler, descobri que era a Novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Essa novena fazia parte do seu cotidiano, concluía e recomeçava. Foi dessa forma que me interessei em aprender a tirar essa novena, e aprendi bem rapidinho. Então, comecei a recorrer com muita fé nos meus momentos de aflições, de problemas e de dificuldades a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, implorando dessa forma: “Valei-me Nossa Senhora do Perpétuo Socorro”. Por isso, diante de um susto ou medo grande, não consigo me controlar e me socorro dela. O tempo foi passando, a infância dando lugar a adolescência, porém a missa diária não perdia. E atentem, naquela época as missas eram celebradas em latim por Mons. Lima. Com o advento da missa em português o entusiasmo foi maior. O horário que costumava assistir na Matriz de Nossa Senhora das Dores era a missa vespertina, no horário de 16:30h. Os celebrantes eram padre Murilo de Sá Barreto ou então, seu coadjutor, padre José Alves de Lima. As homilias eram curtas, mas traziam sempre ensinamentos da palavra de Deus para serem aplicadas no nosso dia a dia. Glória, filha de Seu Vavá (Odemar Bastos Rodrigues, falecido recentemente) muito minha amiga, me acompanhava sempre,  de segunda a sexta. No domingo ia com mamãe e meus irmãos. Quanto estava noiva, mamãe me presenteou com um quadro pintado com a imagem de Nossa Senhora do Silêncio. Na comemoração de um aniversário de casamento recebi de presente a imagem de Nossa Senhora de Fátima, de minha querida sogra. Ganhei também a imagem de Nossa Senhora da Rosa Mística, de titia Laura, tia muito querida. Comecei, então, a me entusiasmar para adquirir mais imagens e, na loja de artigos religiosos de seu Zeca, meu sogro, quando ele comprava imagens bem feitas, bonitas, não contava conversa, pegava logo uma para mim. Nas viagens de turismo comprava a imagem da padroeira da cidade visitada, e assim foi aumentando o meu acervo, hoje, possuo 60 imagens (de gesso e de resina) e oito quadros, alguns pintados, outros em louça ou capelinha. Em Juazeiro, de alguns anos para cá, o mês de maio, antes tão festejado, não possui mais o brilho de outrora. Existia um planejamento, meses de preparo; de reuniões para organização do evento de louvor a Maria; as entidades, escolas, comércio, famílias que receberiam a imagem. Os interessados com antecedência já se prontificavam informando na Paróquia que queriam acolher Nossa Senhora. A escolha dos coordenadores de cada família que se encarregavam de abrilhantar com apresentação de cantores, cantando músicas exaltando o nome de Maria;  a escolha do repertório para ser cantado durante todo o mês; a impressão dos cânticos para distribuir com os fiéis para que todos aprendessem e cantassem. E a noite da família Calou e Sá Barreto, era a mais deslumbrante e por esse motivo a mais esperada. O dia escolhido era sempre o sábado, porque dessa maneira os familiares residentes na zona rural tinham condições de se deslocar de sítios, de cidades vizinhas, pois a presença de todos era indispensável. A coordenadora da família, Vera Lucia Sampaio Morais, se esmerava em trazer novidades, em apresentar números inéditos e que nos emocionavam. Lembro de uma vez, não recordo o ano, que na hora da homenagem soltaram um casal de pombos (simbolizando a busca da Paz), que ficaram agoniados, voando em torno do altar, e padre Murilo, muito aflito, pediu que desligassem os ventiladores porque podiam ferir ou matar os pombinhos que estavam muito desorientados. Um ponto marcante na solenidade organizada pela família Callou era a AVE MARIA em latim, uma linda canção magistralmente cantada por dra. Margarida Callou Thé, uma voz angelical que trazia lágrimas aos olhos dos presentes. Outro representante das famílias da noite, Velasques Sabiá, um senhor de voz muito possante,  também encerrava a festa cantando a AVE MARIA em latim. É bom que se frise a alegria, a euforia que contagiava as famílias convidadas para organizar as noites das famílias. Todas sentiam prazer em ornamentar o altar. Cada família primava em fazer o mais bonito, o mais significativo, era uma espécie de concorrência, concorrência sadia,  e ao mesmo tempo de orgulho em apresentar o melhor. Eis que vem à minha memória, parece que estou vendo, foi a noite da qual entre outras famílias estava a Família Rocha. Ione Rocha, como coordenadora, quis prestigiar as floristas da Rua Santa Luzia que trabalham com flores de papel de seda, e para tanto encomendou muitos cordões com flores azuis, da cor do manto de Maria, e foram colocadas abaixo da imagem de Nossa Senhora das Dores, no altar antigo (o de pedra), e desciam como cachos até perto dos anjos. Ficou lindo e a iluminação enriqueceu ainda mais a beleza, a singeleza de uma coisa tão simples, mas que teve um efeito fantástico beirando ao celestial.
Deixando de lado a modéstia, não podia deixar de mencionar também o esforço de duas pessoas muito dedicadas. Eram Gorete Couto e Luciene Marques, respectivamente representantes das famílias Couto e Marques. Com muita antecedência, tão logo recebiam a convocação de Padre Murilo elas caiam em campo para organizar a programação que seria realizada na noite das famílias que representavam. E faziam bonito, recebendo ao final os maiores aplausos e o agradecimento afetuoso do saudoso Vigário do Nordeste.
Não devemos deixar morrer as sementes plantadas com tanto amor, que foram regadas com tanto entusiasmo e que o modernismo está levando embora. O conformismo, a preguiça, o descaso de momentos tão importantes e que foram tão prestigiados que estão sendo relegados a segundos ou últimos planos. Vamos dar um grito de alerta e pedir: NOSSA SENHORA OLHA POR NÓS JUAZEIRENSES E POR NOSSA CIDADE.
Essa foi a maneira encontrada para louvar a Mãe de Jesus e nossa mãe, expondo para os nossos leitores o meu relicário de imagens que acompanhadas da presença de Jesus em minha vida e na vida dos meus familiares nos presenteiam com bênçãos e graças todos os dias. 

Imagens e quadros do meu acervo: Nossa Senhora da Purificação; de Monteserrat; de Salete; Desatadora dos nós; dos Pobres; da Eucaristia; Rainha da Paz; de Nazaré; de Conceição Aparecida; da Cruz; dos Milagres; dos Prazeres; das Neves; da Saúde; dos Navegantes; das Candeias; do Rosário; do Perpétuo Socorro; da Pena; do Pilar; de Fátima; da Luz; das Graças; de Lourdes; da Penha; da Penha de Vitória; da Cabeça; de Loreto; do Sagrado Coração de Maria; Imaculada Conceição; do Bom Parto; do Bem Maior; Mãe do Divino; das Dores; Auxiliadora; da Glória; de Copacabana; Rosa Mística; das Mercês; da Abadia; do Silêncio; do Pantanal; do Rosil; do Cacupé; do Livramento; de Pietá; da Vitória; Mãe Rainha Três Vezes Admirável; do Carmo; da Defesa e de Guadalupe.  
Vera, Gorete, Luciene, Velasques, Glória e Ione
Padre Murilo, Padre José, Mons. José Alves de Lima e Dra. Margarida Callou
Capa do meu livrinho da novena de Na. Sra. do Perpétuo Socorro














terça-feira, 1 de maio de 2012

Dona Toinha, professora nota 10

01.05.2012

Decorria o ano de 1957, apesar de estar matriculada no 1° Ano Forte, não tinha aprendido a ler. Sabia escrever corretamente, ditado não errava nenhuma palavra, a letra bem legível, mas o principal não sabia, que era ler. Meus pais começaram a ficar preocupados, crianças de minha idade já liam corretamente, e comigo nada. E o pior de tudo isso é que já tinha passado por várias escolas, e a dificuldade continuava. Então indicaram para meus pais que perto de onde morávamos existia uma professora com uma pequena escola em sua própria residência e que ministrava suas aulas através de um método muito eficiente, o uso da palmatória, disseram para eles, “é um santo remédio, aprende mesmo”. Mamãe então, foi conversar com a professora Antônia Silva Filha, Dona Toinha, explicou o meu caso e me entregou para ela, dizendo: “Minha filha é muito nervosa e emotiva; chora com facilidade; sente muita dor de cabeça e, fica envergonhada quando dizem que ela não sabe ler. A palavra que se usava para qualificar essas crianças, criança rude. Estou aqui para matriculá-la, mas peço-lhe que lhe dê um pouco mais de atenção, pois acredito que com a senhora ela vai aprender, tenha paciência com ela”!
Assim, ficou combinado o dia que começava a frequentar sua escola. O receio, o medo que teria que enfrentar todo dia me deixava muito nervosa e preocupada. Finalmente chegou o dia, me preparei com um vestidinho simples, calcei as alpercatas com rabichos, como costumávamos chamar, e me dirigi toda trêmula, o pavor tão grande, que quase não conseguia andar. Ao chegar à porta da escola ela já estava lá esperando os alunos, cumprimentei-a muito encabulada e ela, com seu vozeirão, respondeu: “Bom dia, Tereza! Os dias foram passando e fui me adaptando, já a cumprimentava sem tanto receio. Mas quando ela dizia: “Tereza, estudou, preparou as tarefas?” Não respondia, mas, o meu pensamento respondia: – Claro que tinha feito, não queria levar bolos. Acontece que na hora da leitura me engasgava, tossia, até soluço me dava. Ela me dispensava e passava para outro aluno. Notava que ela sentia uma afeição especial por mim, talvez como se penelizasse da minha dificuldade em aprender. Nos dias que aconteciam a sabatina da tabuada, não errava uma sequer, pois decorar era o meu fraco. A sabatina consistia no seguinte: as quatro operações ela arguia, dessa forma: 5+8-3x6: e a resposta deveria ser dada bem rápida. Entretanto, num certo dia ao sabatinar um colega da minha sala, não lembro o nome, ele errou, e ela fez a pergunta para mim, respondi de imediato, e dessa maneira ela se expressou: “Você vai aplicar seis bolos nele, três em cada mão”. Muito tola e envergonhada, não quis aplicar os bolos com força. Na primeira que apliquei, devagar, ela tomou a palmatória de minha mão e disse assim: “Olhe, menina, é dessa forma que deve dar os bolos, com gosto, para que ele da próxima vez se esforce, estude para não errar”. Então, pegou minhas mãos e aplicou-os com força como sempre recomendava. Nesse dia chorei pra danar, não me conformava porque levei os bolos. Mas também serviu de lição, nas outras vezes botava pra quebrar, não quis sofrer pelos erros dos outros. Em conversa com Socorro Lima, neta de seu Pedro que tocava o sino na Capela do Socorro, que foi minha colega de turma, ela disse que até hoje agradece a Dona Toinha saber algarismos romanos até 5.000. A cartilha usada por  Dona Toinha na nossa turma ela lembra ainda, Lalau, Lili e o Lobo. Outros colegas de minha turma, Paulo Machado (hoje odontólogo e advogado); Maria Ieda de Lima (professora); Edson Amorim (falecido). E foi nessa escola simples, de carteiras duplas, quadro-negro de madeira e com uma cantina no fundo do quintal, que sua mãe Sá Tonha vendia as merendas, como: cocada, pitomba, amendoim, mas raras vezes levava dinheiro para comprar, pois lá em casa a ordem era levar a merenda de casa, que consistia em banana, leite com bolacha, bolacha Lídia e suco. Conduzia numa pequena sacola de pano feita por minha mãe, com um babado e o nome da gente. Foi aí que conquistei um grande sonho, o meu maior desejo naquele período de minha vida, o de saber ler. Com orgulho passava nas lojas e lia as placas, um pouco soletrando, mas finalmente atingi o tão esperado alvo. Dona Toinha dedicou uma boa parte de sua vida na alfabetização de crianças. Ela perdeu a conta de quantos alunos passaram por suas mãos, sabe que foram mais de vinte anos de dedicação total. Conseguiu diplomar-se na Escola Normal Rural e de posse do diploma conseguiu um contrato do Estado e do Município. Entregou sua escola para sua irmã Alice dar continuidade. Sua residência continua no mesmo endereço, Rua Santa Luzia, 21. Hoje aposentada, costuma sentar na calçada para palestrar com seus amigos e vizinhos. Sempre a vejo na Capela do Socorro na missa de 15:30h, no sábado, e a abraço. A essa pessoa simples, de método antiquado, que a pedagogia moderna condenava (o uso da palmatória), devo muito e tiro meu chapéu. E finalizo com os seguintes dizeres: Dona Toinha, muito obrigada, a senhora foi nota dez para mim!.
1.Dona Toinha quando jovem. 2. Atualmente e 3. A cartilha que ela adotava para ensinar Português.
1.Dona Toinha como concludente do Curso de Datilografia. 2. 

Quando aluna da Escola Normal e 3. Na solenidade de sua colação de grau como Professora Primária.

1. Sá Tonha, mãe de Dona Toinha e 2. A imagem de Nossa Senhora da Conceição que no final do mês de maio era coroada. Quando estava encerrando as atividades de sua escola, Dona Toinha fez um sorteio com a turma masculina e o contemplado foi o aluno Antony Agostinho que até hoje a conserva em sua casa, colocando-a bem na entrada da sala do Coração de Jesus.

1.Socorro, ex-aluna e 2. Daniel Walker, também ex-aluno.
Na foto Dona Toinha relembra o tempo em que  dava bolo de palmatória 

Capa das provas da Escola de Dona Toinha. 
Turma  mista de1971, gentilmente cedida por Edvânia. Em pé, da esquerda para a direita: Edvânia, Rosângela, Jaqueline, Cícera, ?, Antony, Mário Jorge, ?, Socorrinha, ?, Rosana, Regina, Carlos Edvan, ?  

Da esquerda para a direita:1ª fila em pé: ?, ?, Dona Toinha, ?; 2ª fila: Nailma, ?, ?, Nilce, ?, Ludmila, ?, ?. Sentadas: ? Imeuda, Sílvia, Isabel Cristina, Analuce e Lúcia Cansanção.
Turma masculina de 1961.Em pé, a partir da esquerda: Demontiê Sobreira, Antonio Agostinho (falecido), ?, Evandro Amorim, Cicero Sobreira, ? ,Paulo Airton Macedo, Serginaldo Agostinho. Segunda fila, ?, Marcos Germano, Marcelo Macedo, a professora Toinha, Roberto Gomes, ?, Cícero Roberto Gondim Medeiros, ?, Carlinhos Lima, Evânio Amorim, ?. Na identificação dos nomes participaram, Dona Toinha, Paulo Airton, Aldo Marcozzi e Evison Amorim. 


MENSAGENS RECEBIDAS
Que lindo! Me deliciei lendo tuas memórias como contação de uma infancia e adolescência que hoje não vemos e não temos o prazer de ver. Que Baú rico hem? Amei as roupinhas dos filhinhos. Também guardo dos meus. Lindo, lindo sensacional! Bjs
Herbene Guedes, Juazeiro do Norte

Olá querida Neuma! Tudo bem?
Hoje depois de algum tempo sem ler os seus artigos, resolvi me deliciar com suas recordações que me fazem tanto bem... Porque não dizer nossas também. Pois são através de suas lembranças que conseguimos entrar e voltar ao nosso mundo imaginário e incrivelmente maravilhoso da nossa infância. Pode acreditar que a cada uma das suas descobertas me vejo nelas, pois me traz de volta todo o nosso passado. Obrigada por me fazer lembrar que existe dentro de nós uma história a contar e que nos torna vivas novamente. Quero dizer que adoro viajar com você nesse tão fabuloso universo.
Um grande beijo,
 PS : Consegui me atualizar com suas colunas.E como era de se esperar todas homenagens ali postadas foram bem merecidas. Parabéns!!!
Marleide Fernandes Guimarães, Fortaleza, Ceará

domingo, 22 de abril de 2012

Descobrindo os mofados do meu baú - I

22.04.2012

 Precisei das anotações de uma agenda bem antiga e descobri pertences e objetos que nem lembrava mais que os tinha guardado, encontrei-os no meu guarda-roupa. Coisas que na época me fizeram muito feliz. Então, achei por bem mostrar para os meus leitores esses objetos que talvez tenham possuído também em tempos atrás. Livro que nele se copiava poesias, foram tantas e com datas, esses momentos a juventude de hoje não aprecia. Minha bonequinha de plástico duro, vestida com uma roupinha de cor rosa, feita com bicos e bem rodada, e era colocada no jeep do meu pai. Esse modelo de boneca colocava-se no espelho do carro e quando o carro estava em movimento ela ficava rodando. É uma pena que destruí a sua roupa. A bolsinha de crochê feita por minha mãe. Não me desgrudava dela, colocava acima do pulso, onde colocava o terço quando ia para a missa. Costumava pôr balas, papel de chiclete, pois tinha o hábito de colecioná-los. O álbum de formatura, presente que recebi na formatura do Normal Pedagógico, em 1968 no Colégio Mons. Macêdo, dirigido pelas Irmãs Missionários de Jesus Crucificado. O vestido dos meus quinze anos, confeccionado em seda pura e bordado à mão. Na época muito chique. Os instantâneos das viagens; com as colegas no colégio; com alunos no estágio. Fotos sem nenhum recurso que tirávamos com máquinas fotográficas muito simples. Algumas peças do enxoval do meu primeiro filho. Que lembranças! A nostalgia chega. Procuro mais e, eis que encontro um caleidescópio, que meu sogro, Zeca Marques, confeccionava nas horas vagas, quando a sua lojinha não tinha muito movimento. Vendia sempre, os romeiros achavam bonito, e cada um que queria ver logo. Diziam assim: “Deixa eu ver”, seu Zeca muito entusiasmado, dizia: “Tem para todos, tenho um bom sortimento”. Um deles, ele me presenteou e mostrava para os meus filhos (seus netos) segurando com medo de que o quebrassem. Mais tarde, não merecia mais o mesmo cuidado e deixava que eles se divertissem, mexendo em círculo para formar novos desenhos. Já crescidos não lembravam mais daquilo que tanto brincaram. Nasceram minhas netinhas, e quando já estavam com um pouco de entendimento comecei a mostrá-las. Como foram bons esses momentos. Na minha memória são inesquecíveis. Dizia para elas: “Foi o bisavô de vocês que fez”. Tinha que dividir o tempo para cada uma para evitar o chororô. Minha bolsa de vime, comprei-a no Rio de Janeiro, em 1965, na excursão das humanistas do Mons. Macedo. Que passeio maravilhoso, ficamos hospedadas na Casa do Estudante, localizada na Lapa. A toalha de fuxico que fiz quando estava noiva. Abro um parêntese para dizer: “Fiz o fuxico, mas a montagem coube à minha mãe, não tinha tempo, pois trabalhava no comércio, cursava faculdade e ainda noivava”. O jeito foi mamãe costur=a-la.

- Ontem mais uma surpresa aconteceu comigo, estava procurando um endereço, no final da Rua Padre Pedro Ribeiro, não o encontrando, peço informações. As indicações recebidas me levam até à Rua das Dores, depois de uma pequena ponte. O que vejo: a empanada de um circo montado, bem simples, nem vi o nome. Nisso sucedem imagens do meu tempo de criança e de jovem, sentada nos poleiros do circo, assistindo o espetáculo. Ecoou em meus ouvidos, o som: “Hoje tem espetáculo, tem sim, senhor!” E os palhaços e os trapezistas, o globo da morte, os anãozinhos. Ah! Já consumi  bastante o gosto de saudade. Fica marcado um novo encontro de coisas e de momentos de lembranças.   





domingo, 15 de abril de 2012

O adeus ao Lar do Ancião Feliz Dona Dondon


Preparei um sacolão de roupas que pertenciam à minha querida sogra e me dirigi a este local para entregar conforme tinha combinado anteriormente com Eliene Cornélio e tive uma enorme surpresa, pois o lar que abrigara durante quase vinte seis anos, velhinhos, pessoas que não tinham mais família, outros abandonados pelos familiares estava fechando suas portas. O baque foi grande. As lágrimas deslizaram em meu rosto, não consegui controlar. Na época do Natal costumava levar alguns mimos para as velhinhas, como pipoca (elas adoram); produtos de higiene pessoal, toalhas, lençóis. Elas riam, agradeciam, cantavam e na despedida clicava o meu momento especial com elas. Eliene vendo a minha tristeza, disse: “Neuma, elas vão ser transferidas para o outro Núcleo, que fica no Bairro Tiradentes, na Rua do Ancião, 186. Lá é uma chácara, a fundadora, Francisca Benício de Sousa, mora lá e elas vão se sentir bem, num lugar com muitas árvores, com espaço para passear, só que precisa de mais ajuda porque o local ainda não está totalmente preparado para recebê-las, os cômodos construídos precisam do acabamento. Vá lá fazer uma visita, leve os donativos e assim você conhece a fundadora”.
Assim o fiz. Na entrada, um portão simples e o muro baixo completado com cerca de arame. Gostei do que vi, uma trepadeira, ou melhor um pé de Jasmim de Marinheiro perfumando o ambiente. Que recepção! Fui encaminhada para Dona Francisca Benício que sentadinha se encontrava numa cadeira de balanço debulhando feijão verde. Percebi logo sua cegueira. Segurei em sua mão e me identifiquei. Ela riu, agradeceu a visita e pediu que me sentasse ao seu lado para conversarmos. A minha primeira pergunta foi o que a induziu a criar uma casa para cuidar de idosos. Ela levantou a cabeça como se estivesse me olhando e disse assim: “Desde criança que gostava de fazer curativos nas pessoas, nos meus irmãos quando se feriam, quando se machucavam ou se queimavam. Fui crescendo e o desejo de ajudar às pessoas foi crescendo. Muito sonhadora comecei a alimentar a ideia de fazer algo para os idosos, para as pessoas carentes. Seguindo o meu destino me tornei enfermeira e, em 1955, estive na inauguração do Hospital São Lucas, fiz parte do corpo de funcionários e lá trabalhei durante algum tempo. Em 1967 quis voar mais alto e parti para Fortaleza, trabalhei em hospitais e nas horas vagas estudava preparando-me para fazer o concurso para o INPS, naquela época assim era chamado (Instituto Nacional de Previdência Social), hoje, INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social). O esforço valeu a pena e em 1970 me submeti ao concurso obtendo êxito. Entretanto, só aconteceu o meu chamado em 1974. Exerci o meu ofício em Fortaleza por doze anos, pedindo transferência para minha terra natal, Juazeiro, para acompanhar meus pais que precisavam dos meus cuidados devido à idade avançada. Logo que cheguei aqui, quis praticar ainda com mais persistência o meu desejo de ajudar ao próximo, o meu espírito idealista não me abandonava. Realizava palestras sobre idosos, tinha um programa na Rádio Iracema falando sobre idosos, suas necessidades, assistências e cuidados. O tempo era curto, apenas meia hora, mas era suficiente para esclarecer dúvidas, informações importantes para o cuidador etc. Esse programa ficou no ar durante dez anos. Minha mente não parava, trabalhava arduamente tentando descobrir como poderia fazer mais. Surgiu, então, a ideia de fundar uma casa para abrigar pessoas abandonadas pelos familiares; pessoas que já não possuíam família; velhinhos que perambulavam pelas ruas. Fui orientada por amigos sobre o procedimento necessário para criar uma instituição: documentação, registro, estatuto, providenciei tudo com a rapidez de um raio, graças a ajuda de uma amiga fiel, Lucrécia. O que estava faltando era o local para funcionar. Busquei ajuda em entidades, comércio, indústrias... e nada. No início de agosto de 1986, numa quarta-feira, me dirigi para o Santuário de São Francisco para assistir à Hora da Graça, nesse dia estava bem desanimada, mas me vali de Jesus e de todos os Santos pedindo que os caminhos fossem abertos, que alguém abraçasse essa causa. Voltei para casa mais animada e confiante, depois de rezar bastante, senti que o meu sonho iria se tornar realidade. No dia seguinte, recebi uma ligação de irmã Nely Sobreira, da Congregação das Missionárias de Jesus Crucificado, ordem fundada por Mons. Macedo, dizendo que precisava conversar comigo. Rapidamente me dirigiu para me encontrar com ela no Limoeiro, precisamente no Dispensário Nossa Senhora das Dores. Lá chegando, irmã Nely já estava a minha espera e foi logo dizendo: 'Tenho uma boa notícia para você, o Professor Espedito Cornélio me procurou para pedir que o ajudasse na criação de uma casa de repouso para idosos, e como já estou bem atribulada de trabalho não tenho condições de administrá-la, e pensei em você!' No momento fiquei extasiada, não estava acreditando no que ouvi. Mesmo assim, sem acreditar, pensei: Minhas preces foram ouvidas, Papai do Céu está abrindo os caminhos que pedi.
Irmã Nely marcou um encontro com o Professor Espedito, uma pessoa de Deus, muito fervorosa e caridosa, dons herdados da mãe, Dona Maria Caldas (Dona Dondon) para que o inteirasse do meu objetivo. Apresentei a documentação, o estatuto, ele examinou e me deu a resposta imediatamente: 'É isso mesmo que estou querendo'. E foi assim que surgiu o Lar do Ancião Feliz Dona Dondon, na Rua Santa Rosa, 215, Bairro do Socorro. O nome dado para a associação foi uma justa homenagem à mãe do comodante do imóvel, que fez doação de tudo que existia na casa, móveis, utensílios de cozinha, eletrodomésticos, telefone exceto o imóvel. Nestes quase vinte e seis anos de existência o Lar do Ancião Feliz Dona Dondon cumpriu com a missão:  “Promover o bem-estar e felicidade da população idosa”. Abrigou durante esse tempo todo quase duzentos velhinhos”. Hoje, encerra suas atividades. As oito velhinhas que estão morando nele serão transferidas para o núcleo do Bairro  Tiradentes, cujo  terreno pertenceu aos  pais de Dona Benício, Seu Antônio Teotônio e Dona Josefa Benício de Sousa que notando a dedicação e entusiasmo e  espírito de doação de sua filha por uma causa nobre fizeram a doação do terreno para abrigar a associação. É necessário dizer que muitas pessoas vontadosas contribuíram para o funcionamento da Associação Dona Dondon, como: Irmã Teresinha Sousa, Irmã Nely Sobreira, Eliane Melo, Eliene Cornélio, Joana, Dona Terezinha e muitas outras pessoas abnegadas e desprendidas. As velhinhas com certeza vão se adaptar à nova morada, para elas é uma grande novidade. O que podemos fazer? Pedir a Deus que as pessoas que colaboravam com o de Dona Dondon continuem  firmes e fiéis nos seus donativos para que a cada dia os idosos desse Lar tenham mais conforto e uma vida melhor. Dona Francisca Benício apesar da deficiência visual é uma pessoa tranquila e feliz no que faz. Ri bastante, canta, diverte. A curiosidade me fez perguntar a causa da cegueira, ela respondeu: “Fui acometida de glaucoma, e em 2006 perdi totalmente a visão. Fui a um passeio num sitiosinho que minha irmã Ismênia possui, e lá fomos dar uma volta e olhar do alto a lua cheia que estava surgindo, e todos olhando e dizendo que lua linda! Procurei e não a vi, apontaram na direção para que a visse, me virei, e nada. De repente a vi, só rapidamente. Foi a última vez que enxerguei e vi a lua. Mas sou conformada!. Deus permitiu que fosse assim”.
Que belo exemplo de resignação e de aceitação. Obrigada, Dona Benício, por ter me ensinado em tão pouco tempo de conversa, a imensidão do amor de Deus. 

Sede do núcleo do Bairro Tiradentes


1. Dona Benício. 2. Construção de novos aposentos.
       E-MAIL RECEBIDO
Neuma: Lendo sua coluna Recordações me transportei aos meus 5 anos, mais precisamente a 1957 quando papai e mamãe, com muito carinho, me prepararam para eu ir ao Crato tirar a foto que você publicou. Confesso que não lembrava que essa foto era colorida. Como você é detalhista! Nunca imaginei que você lembrasse desse detalhe. Lembro também da foto do  meu irmão Eudório. Quando tirou essa foto papai fez questao de  pentear o seu cabelo com muito esmero. Obrigada, querida prima, por essas lembranças que nos fazem tanto bem. Que deus continue a iluminá-la para que você faça sempre as pessoas felizes.
Socorro Romão, Juazeiro do Norte