domingo, 10 de junho de 2012

Descobrindo os mofados do meu baú – II

10.06.2012

 Não tem jeito, quando vou dar uma arrumada nos meus armários ou quando preciso de alguma coisa que se encontra nas gavetas, a surpresa chega de súbito e me vem logo à memória as lembranças de momentos felizes. E faço questão de dividir com os meus leitores. Objetos, quinquilharias, miudezas que certamente vocês já possuíram. É uma sensação muito gostosa que sinto quando revejo coisas do meu passado. O copo ou caneca com asa, de alumínio colorido com o nome gravado, foi presente de meu avô paterno, Pai Bel. As cruzetas de madeira, herdei-as de minha mãe quando casei. É a nova! Hoje encontramos de montão nas lojas de preços módicos, as chamadas lojas de 1,99, criadas a partir do plano monetário, do Real. Fabricadas em plástico colorido, porém não têm muita resistência, não suportam muito peso. O terço de ouro 18k, fabricado na oficina de propriedade do meu pai, localizada na Rua Santa Luzia com Rua Padre Cícero, chamava-se Ourivesaria Santa Luzia. Presente de meu pai na comemoração dos meus onze anos. O que exponho é folheado, não é de ouro, só para que tenham uma ideia de como era chique, o meu de ouro não sei que fim levou. As continhas eram pequenas e um crucifixo bem trabalhado. O meu Missal ou livro Adoremos, comprei-o na Papelaria Nossa Senhora de Fátima, de propriedade de dona Rosinha, localizada na Rua São Pedro esquina com Avenida Dr. Floro. A sua edição XXXII, de 1962. O meu companheiro nas missas, naquele tempo as missas eram rezadas em latim, e nele contém as explicações escritas em português de todos os momentos vivenciados na Santa Missa. O compacto duplo, tema da novela da Tevê Tupi, Antônio Maria, com os atores Sérgio Cardoso e Aracy Balabanian. Novela que fez o país parar, por ser a primeira novela exibida na televisão. Antes as novelas eram ouvidas pelo rádio e não assistidas. Essa novela contava a história de um amor muito bonita. Nessa época, ano de 1968, estava fazendo o cursinho no Diocesano para me submeter ao vestibular da Faculdade de Filosofia do Crato. A nossa turma gazeava aula para assisti-la. O radinho de pilhas, de marca Sharp, a coqueluche do final dos anos sessenta. Presente que recebi de Daniel, quando ele estudava em Recife, comprou-o após renunciar algumas merendas, andando a pé e conseguiu me dar esse belo presente. Foi um ato de amor mesmo, fiquei toda orgulhosa. A leiteira e a manteigueira Colorex, peças que fizeram parte dos utensílios que comprávamos semanalmente, após o recebimento do salário, ou melhor o vale que Daniel recebia como funcionário da Rádio Iracema, apresentando o Grande Jornal Sonoro Iracema, juntamente com o locutor Coelho Alves, diretor da emissora. Eu trabalhava nas Lojas Credilar vizinha da loja A Vencedora, de propriedade do senhor Severino Alves. Loja muito sortida, com louças, alumínios, perfumes etc. E no final do expediente no sábado, nessa época já funcionava a semana inglesa, Daniel encontrava comigo e íamos escolher o que dava para comprar, junto do catálogo das peças. A ansiedade era grande a cada sábado. As nossas compras para casarmos. A caixa de embalagem do sabonete Promesa, antes pertenceu à dona Maria (minha sogra), colocava dentro as linhas quando bordava. Depois passou para mim a caixa com as linhas. O ursinho musicado, presente que Michel ganhou quando nasceu. Acalentou muito o seu choro, do seu irmão Daniel Junior e das suas sobrinhas (e minhas netinhas, Heloísa e Isadora) quando passavam o domingo aqui em casa. O danadinho ainda funciona e guardo-o com muito cuidado, esperando acalentar ainda bebezinhos chorões. Hoje, os produtos não têm tanta resistência, são fabricados com o propósito de acabar rápido, para que se comprem novamente. É o tempo do descartável e a natureza cada dia mais poluída com  tanto material plástico espalhado por esse mundão a fora. Que pena!   

MENSAGEM RECEBIDA
Menina do Céu! Quis dizer mesmo Mimo do Céu... Hoje acordei ansiosa pra ver sua Coluna.Um tanto preocupada, pois mamãe já esta novamente na Clínica. São José. E como já estou em busca de passagens, procurei um ar fresco e encontrei no jardim de amores tão perfeitos e lídimas manifestações divinas, que você graciosamente pintou em sua coluna. E outra vez, parabéns a você que nos encanta com este recanto. Um abraço! 
Socorro Aguiar, Rio de Janeiro,RJ.

domingo, 3 de junho de 2012

As flores e plantas da minha infância e a saudade que vem


Há uns dois meses (eu e Daniel) fizemos uma viagem de carro até Gravatá para dar uma revigorada após o falecimento de dona Maria. A tristeza e a saudade nos abalaram muito, então resolvemos fazer esse passeio para conhecer e curtir o tão famoso frio de lá, mas acontece que o clima estava bem parecido com o nosso. Mesmo assim foi uma viagem maravilhosa. Na estrada, como passageira, ia apreciando as paisagens, os campos, as casinhas solitárias no caminho e fui encontrando muitas florzinhas que fizeram parte de minha vida, na casa dos meus pais, na Rua São José, 750, onde hoje funciona um estacionamento. Lembro, por exemplo, de uma trepadeira plantada no jardim junto ao muro, com ramos cheios de flores de cor branca e tom rosado das quais saía uma espécie de mel ou algo com sabor adocicado que gostávamos de sugar, e como era bom! E também brincávamos colocando a flor no dedo médio para estourá-la e ouvir o pipoco que até assustava quem estava desprevenido. Amor agarradinho, outra espécie de trepadeira, rosa e branca, era na casa de titia Maroli e tomava conta de todo o muro do jardim caindo para dentro, ficando todo rosadinho. Nesse mesmo jardim tinha o Mimo do Céu, florzinha muito linda que embelezava em derredor da casa e do terraço. Não posso esquecer as famosas Dálias de várias cores. O encanto que inebriava a nossa visão era o tamanho delas, enormes, viradas para a frente, de lado, umas pertinho das outras, como se estivessem dizendo para nós: “vocês estão me admirando?”; Carrapicho, planta de haste verde que possui umas bolinhas cheias de espinhos. Costumava participar de uma brincadeira que consistia em jogar de longe, a haste com o carrapicho, na roupa de quem estava próximo de nós para que grudasse na roupa e quando a pessoa fosse retirar se espinhava.  Maravilha uma plantinha muito fácil de pegar, basta semear o canteiro ou jarro com algumas sementes e logo germina. Quem levava de várias cores para mamãe era seu Manuel, um velhinho que gostava de tomar café lá em casa e presenteava mamãe com as sementes; Hibisco fechado, vermelho, nossa brincadeira predileta com as bonecas, fazia de conta que era carne, cortava os pedacinhos e colocava nas panelinhas para que as bonecas comessem. Papai comprou um pequeno terreno no final dos anos 50 no Sítio Carité, hoje batizado de bairro. A estrada no inverno era um deus nos acuda, o massapê, uma terra preta de odor desagradável era um estirão só. Atolava os carros de pequena tração, o que não era o caso do transporte de papai, que era um jeep. Quando chegava o domingo esse passeio era infalível. No terreno, não chamávamos de sítio porque não possuía árvores frutíferas de grande porte, existiam alguns pés de cana, goiabeiras e muito capim e algumas flores, como a Jutirana, florzinha rasteira, na cor rosa ou lilás que invadia quase todo o terreno e a chanana, florzinha que só abre as pétalas pela manhã. Paulo, meu irmão que é engenheiro agrônomo, disse que ela é muito preguiçosa, e é chamada de funcionária pública, porque trabalha só um expediente. No terreninho tinha uma coisa bastante curiosa para nós crianças, era um olho dágua. Próximo de uma cerca que servia de divisão entre o nosso terreno e o vizinho. O olho dágua ficava no nosso. Era bonito ver de perto aquela água jorrando sem parar de um pequeno buraco, só a natureza criada por Deus nos proporciona belezas assim inesquecíveis.
Passeando nas ruas de Gravatá me deparo com um pé de Acácia, de flores brancas, misturadas com rosa e um pistilo marrom, tem a aparência de orquídea. Pendurado nos galhos vagens grandes e escuras, quando quebrada saem às sementinhas. E as Borboletas matizadas, amarelas, vermelhas, que gostava de levar para as minhas professoras quando fazia o primário.
Caros leitores, nesta viagem revivi e lembrei de coisas maravilhosas, de plantas, de flores, de momentos de descontração, de minhas brincadeiras com as bonecas e ainda tive o prazer de passear com o meu amado, de conversar de mãos dadas nas praças de Gravatá, ruminando e saboreando, como disse minha amiga Margarida Angélica, dos muitos momentos felizes da minha vida. 
 1.Chanana fechada. 2. Chanana aberta. 3. Mimo do céu. 4. Amor agarradinho. 5. Borboleta. 6. Dália. 7. Maravilha. 8. Hibisco fechado. 9. Trepadeira. 10. Acácia

MENSAGEM RECEBIDA
Oi Neuma !
Formidável! Ficou a cara dela, em conformidade com sua natureza: simples, serena, verdadeira e pura, esta "Dona Tudinha". Fiquei comovida, também, por se tratar de minha mãezinha, e, registro aqui o preito de minha gratidão pelo carinho e conforto de sentir e sabê-la amiga e tão presente nesse momento sombrio "porque passo agora". Parabenizo-lhe pelo desempenho tão fiel e generoso em trazer para nós lembranças indeléveis que fazem parte de nossa história. Valeu! Um abraço fraterno e continue com esse belo trabalho, que é uma forma de resgatar a memória de muitos, e ao mesmo tempo prestar-lhes homenagens.
Socorro Aguiar, Rio de Janeiro, RJ 



terça-feira, 29 de maio de 2012

Dona Tudinha, amiga e costureira de mão cheia

29.05.2012


O meu conhecimento com dona Tudinha se deu através da amizade que existia entre ela e dona Maria (minha sogra), vizinhas de longas datas. Quando namorava Daniel fui apresentada para ela, que bem simpática, teceu alguns elogios sobre mim e perguntou o nome dos meus pais. Quando falei o nome do meu pai, a alegria estampou-se em seu rosto e disse: “Você é filha de Lulu? ... Ele foi muito meu amigo, pessoa de coração grande, gostava de fazer caridade, de ajudar aos necessitados e de tratar cordialmente às pessoas, dizendo: Saúde e paz! Que pena, ele morreu muito novo”. E daí surgiu a nossa amizade. Sempre que ia para a casa de Daniel a encontrava, algumas vezes na porta, outras sentada na calçada, e muitas outras vezes passava em frente à sua casa e a porta  encontrava-se fechada. Esse era o sinal de que estava trabalhando. E o seu trabalho era o de confeccionar camisa e calça para homens. Diplomou-se em corte e costura, e assumiu a sua profissão com tanto amor, com tanta dedicação que sua clientela crescia cada dia. Ela não gostava de dizer NÃO para os seus inúmeros clientes, mas quando não tinha condições de entregar no prazo solicitado, para não ser irresponsável não recebia a encomenda. Para ser mais exata, no dia marcado o vestuário estava pronto, passado, já no jeito de ser usado. Gostava muito de conversar, de assistir missa na Capela do Socorro e de cultivar boas amizades. Falava sobre minha tia Laura, irmã de meu pai, uma grande amiga sua. Quando meus filhos nasceram ela se tornou a costureira deles. O primeiro boné usado por Michel e por Daniel Junior foram criações suas. Macacões de vários modelos, bermudas, calções, camisas, conjuntos Safari, um guarda roupa completo de novidades, uma verdadeira expert no que executava com tanto prazer, que quando finalizava o trabalho estendia-o em sua frente e ficava admirando sua obra. Recordo que quando ela marcava o dia de entregar as roupas dos meninos, em sua casa não existia ainda cigarra e tinha que chamar, e quando ela não escutava devido ao barulho da máquina, eu batia no vidro da porta, dizendo: “Dona Tudinha, é Neuma”. Ela respondia e pedia que entrasse e acrescentava: “Tô já terminando, sente um pouco, já estou passando para lhe entregar”. E eu respondia assim: “Não se incomode em passar, sempre amassa, deixe que passo em casa”. Mas, sempre muito correta, não aceitava a minha sugestão e ainda embrulhava em papel de embrulho, naquela época não existia sacolas de plástico. Quando saía de sua casa carregada de embrulhos, sorria feliz imaginando como meus filhos ficariam alinhados com os modelos confeccionados por ela. E foi assim por um bom tempo que dona Tudinha costurou para eles, deixando quando eles já crescidos porque optaram por camisas de malha e calça jeans. Coincidiu também com a época em que ela já estava se aposentando e deixava de costurar, passando a aproveitar a vida para viajar, conhecer novos horizontes, países estrangeiros e visitar os filhos que moram fora. Com setenta e sete anos, enfrentou uma longa viagem à Europa, numa excursão organizada por padre Murilo de Sá Barreto, para comemorar os cem anos da missa celebrada por Padre Cícero, em Roma, na Igreja de São Carlos Al Corso. A excursão percorreu cinco países; Portugal, Espanha, França, Suíça e Itália. Fiz parte dessa excursão e em nenhum momento vi dona Tudinha cansada, indisposta, renunciando a algum passeio ou pedindo para descansar. Participou de todo o roteiro, e olhem que não foi moleza, pois  foram percorridos 11.900km por terra, é muito chão. E a baixinha Tudinha, toda enfronhada com agasalhos e cachecóis, resistiu ao frio e não sentiu nem resfriado. Como foi maravilhosa essa caminhada de peregrinação, visitando igrejas, santuários, assistindo missas e pregações, o momento com o Papa. Para dona Tudinha decidir participar de uma excursão de temporada tão longa para uma pessoa da sua idade considero um ato de heroísmo. Relembro agora o local de sua residência, local privilegiado voltado para uma praça (José Sarney), com árvores, bancos para sentar com os amigos e  palestrar,  cumprimentar as pessoas que passam, e ainda, quando sozinha resolvia as incontáveis revistas de palavras cruzadas, prazer muito apreciado por ela. Em novembro do ano passado comemorou com familiares e amigos os seus noventas anos, num clima de alegria com a celebração da Eucaristia na Capela do Socorro e muita descontração em jantar oferecido e organizado por seus filhos. Ultimamente, essa fortaleza de mulher que sempre à tardinha nestes últimos tempos ficava sentadinha na frente de sua casa aguardando os amigos para conversar, não está mais com aquela disposição. A idade contribui para isso e também o coração que começa a falhar. Mas espero em breve vê-la novamente sentada na praça, saudando os amigos com aquele belo sorriso de meiguice. Dona Tudinha é viúva de seu Isaias Melo, uma das primeira pessoas a possuir e pilotar motocicleta em nossa cidade, tem quatro filhos  (Eliane e Socorro; Francisco e Raimundo). A dedicação e os cuidados com que seus filhos a assistem ultimamente é resultado do amor e abnegação que ela teve para com eles.   
Amostra de algumas roupas confeccionadas por Dona Tudinha

Dona Tudihnha  com sua máquina de costura; sua residência na Praça José Sarney e o banco onde costuma conversar com as amigas na mesma praça.

Na foto de cima, participando da Renovação do Sagrado Coração de Jesus na casa de sua amiga Maria Almeida,; na de baixo: um flagrante de sua viagem a Europa em excursão coordenada pelo padre Murilo.
 MENSAGENS RECEBIDAS:

Gostei demais de você ter publicado as histórias engraçadas de mamãe na sua coluna. Gostaria de acrescentar que mamãe, após o falecimento de papai, recebeu de vários amigos da Pracinha muitas manifestações de consolo, através de palavras de conforto e de conversas alegres acompanhadas de contação de piadas. Ela gravou na memória todas as piadas que lhe foram contadas e gostava de contar pra gente. Ela tinha uma predileção especial pelas piadas mais picantes. Todas as suas piadas eu publiquei noutro livreto, intitulado “Piadas e outras histórias de Almeidinha”, que espero publicar brevemente.
Carlos Alberto, Fortaleza

Adorei a matéria.Também estudei com D.Toinha e D.Alice, sua irmã. Aprendí a tabuada na ponta da língua e adorava a macaxeira que a mãe dela vendia na hora do recreio....Parabéns, Neuma!!!!
Sávia Ferraz, Fortaleza

domingo, 20 de maio de 2012

Homenagem ao Dia das Mães

 


Transcrevo hoje, dando sequência a homenagem prestada na coluna anterior, o restante do livreto Histórias de Almeidinha que Carlos Alberto escreveu, homenageando sua mãe por ocasião dos seus noventa anos. No momento da entrega do presente, aconteceu uma pequena festinha regada a salgadinhos, refrigerantes, um bolo confeitado com as velhinhas nove e zero e a presença dos familiares e amigos. Foi uma tarde muito gostosa, alegre e de muita gozação por parte de seu Zeca, zombando das gafes, dos micos e vexames cometidos por dona Maria e que a partir desse dia se tornaram públicos.
A sequência final do livrinho: Histórias de Almeidinha
                          
                                        
A BAHIA NÃO É O CEARÁ
Mamãe foi com Lou para Salvador, para assistir ao nascimento de Carlos Alexandre. Foram de ônibus e atravessaram o Rio São Francisco, chegando em Juazeiro da Bahia. Nesta cidade baiana, tiveram que mudar de ônibus para prosseguir viagem até Salvador. Prontamente, um gentil carregador se ofereceu para carregar as malas das duas senhoras até o outro ônibus. Concluído o serviço, mamãe quis dar uma gorjeta e perguntou, bem educadamente: “Quanto é, meu senhor?”. O baiano, sem cerimônia e baianamente, cobrou um certo valor, que elas acharam muito alto. Mamãe então, exclamou:”Vige, é muito caro! No Ceará não é esse preço não”. O baiano, agora nada gentil e irritado falou: “Acontece que a senhora tá na Bahia”.

NO TAXI, EM SALVADOR

Também na viagem a Salvador, mamãe e Lou, pegaram um taxi para ir do meu apartamento ao hospital, onde Ozenir estava se recuperando do parto de nosso filho Carlos Alexandre. Eu não podia levá-las porque estava trabalhando. Naquele tempo, a maioria dos taxis era fusca, sem o banco de passageiro da frente. Os baianos diziam que o banco era retirado para facilitar o acesso dos passageiros no carro. Mas parece que, na verdade, era para transportar menos gente. Coisa de baiano!
Lou entrou no taxi e ficou sentada no banco, atrás do motorista. Mamãe sentou no lado que não tinha o banco da frente. Logo que sentou, mamãe disse pro motorista para ir pro hospital e que estavam atrasadas. É claro que mamãe não disse para o motorista ir ligeiro. Foi ele que entendeu dessa maneira e seguiu, então, com muita velocidade. Mamãe, como estava sem o cinto, deslocou-se para o painel do carro e, desequilibrada quase sentou no colo do motorista. Este, entre assustado e incomodado, falou: “Calma, minha senhora, desse jeito eu não vou poder dirigir”.

OS MEUS CINQUENTA ANOS

Quando eu completei 50 anos, comemorei a data em minha residência, em Natal. Além dos meus pais, familiares meus e de Ozenir, vieram também alguns amigos íntimos de Juazeiro. Foi uma festinha bem familiar e que me proporcionou uma grande alegria. Lá para altas horas da noite, já no final da festa, eu já estava, digamos, um pouco mais alegre, sob o efeito de algumas doses de whisky. E como se diz no Ceará, eu quis botar boneco, inventando de ir para a rua, continuar a bebedeira. Mamãe pedia que eu não fosse, insistia mesmo. E eu lá, bonecando: “Não..., eu vou pra rua, eu não quero que o dia acabe”. Lá para as tantas, ela vendo que eu não me demovia dessa ideia maluca, falou sério comigo: “Olha aqui, Carlos Alberto, se você continuar com essa palhaçada eu não venho pra festa do seu próximo cinquentenário”. ´Taí, uma demonstração inédita de otimismo dela, que eu nunca tinha visto  antes.

NO CARRO COM DANIEL

Mamãe tem o maior medo de carro. Dentro e fora dele. Cuidadosa e precavida, ela só atravessa uma rua, se não tiver nenhum carro se dirigindo no seu ângulo de visão. Dentro do carro não é diferente. Por diversas vezes em suas visitas às minhas residências, em Salvador, Aracaju e Natal, a gente saía para passear pela cidade. Ficávamos mostrando os locais turísticos da cidade, e ela não virava a cabeça para olhar. Ela dentro do carro só olha para a frente. Ela acha que se desviar o olhar, quem estiver dirigindo se distrai e pode bater o carro ou atropelar alguma pessoa. Pois bem, foi assim que um dia ela foi passear de carro com Daniel, Neuma e papai, na estrada do Horto. Durante todo o percurso até ao Horto, mamãe ficava advertindo Daniel: “Cuidado, olha o menino!, olha o carro!, vá devagar”; “Oh! Meu Deus, olha a carroça, cuidado no jumento, esse carro tem freio?”. Daniel, já sem paciência, de imediato parou o carro, tirou a chave da ignição, abriu a porta, desceu do carro e falou pra mamãe: “Tome a chave, mamãe, a senhora agora é que vai dirigir”. Mamãe, chateada, resmungou alguma coisa tipo ”Precisa ser tão grosso assim!”, e ficou quietinha o resto da viagem.

A VALISE NO ÔNIBUS

Quando eu morava em Aracaju, mamãe e papai foram nos visitar. Viajaram de ônibus até Maceió e lá pegaram outro ônibus para Aracaju. Naquele tempo não tinha ônibus direto de Juazeiro para Aracaju. Mamãe sentou numa cadeira do lado direito do ônibus, e colocou a valise no porta bagagem de mão do ônibus, de tal modo que ela sentada, olhando para a frente, ficava vendo a valise do seu lado esquerdo. Num determinado momento, o ônibus fez uma parada para o almoço ou lanche, no percurso Juazeiro/Maceió. Todos desceram. Ao retornar ao ônibus, mamãe entes de sentar na poltrona, quis pegar a valise para retirar alguma coisa. Então, de pé, no interior do ônibus, ela procurou a valise no porta bagagem do lado esquerdo, como ela sabia que estava. Mas, não a encontrou. Aí ficou abusada: “Cadê minha valise? Eu coloquei bem aqui, desse lado. Eu não posso viajar sem minha valise. Ela é marrom e eu não estou vendo ela”. Nisso todo mundo já tinha entrado no ônibus, todos já estavam sentados e logicamente queriam seguir viagem. Ela continuou: “Eu quero minha valise! Ô motorista, o senhor não pode seguir viagem se não aparecer minha valise”. O clima já estava pesado, papai, tranquilo nem participava da cena. Foi então, que o motorista resolveu interferir. Vendo uma valise, perguntou: "Minha senhora, não será aquela valise ali, do outro lado?” E mamãe: “É essa mesmo”. Foi então, que mamãe se deu conta que estava olhando no sentido contrário do ônibus. Agradeceu ao motorista, pegou a valise, colocou-a no colo e a viagem seguiu em paz.

NO ELEVADOR DO PRÉDIO DE LÍLIA

Durante uma viagem a Aracaju, passamos em Recife e Olinda para fazer uma visita aos nossos parentes. Lilia nos levou para visitar sua filha e minha sobrinha Lília, que mora no décimo andar de um apartamento em Boa Viagem. Pegamos o elevador social do prédio, muito chique, tinha um espelho no fundo. Mamãe ficou na lateral do elevador, quietinha, tensa, bem no seu natural, e olhou para o espelho. Quando a porta do elevador abriu, já no andar de Lília, mamãe falou bem baixinho: “Esse pessoal parece com a gente”. Ela achou que a nossa imagem refletida no espelho eram outras pessoas. Imaginem as risadas.

CONFUNDINDO PALAVRAS

Mamãe está com um pequeno problema de surdez. Digo pequeno, porque acho que ela ouve só o que quer ouvir e, precipitada, confunde as palavras. Inclusive, há uns três anos ou quatro anos atrás, ela fez um exame de audiometria, que acusou sua boa audição, com alguma deficiência, normal para sua idade. Há pouco tempo atrás, passava uma novela na TV Globo, “O quinto dos infernos”. E tinha uma personagem que representava D. João VI, meio ridicularizado, bobalhão, e que tinha um jeito de falar meio meloso, tipo retardado. Eu gostava de imitar o seu jeito de falar. Um dia, em Juazeiro, eu estava de saída para Natal, logo cedo. Sentei-me na mesa da cozinha, enquanto mamãe preparava o nosso café da manhã. Eu então, realmente triste por ter que viajar, e querendo brincar um pouco com a situação, disse, imitando o tal D. João VI e relembrando um apelido meu de criança: “Bertim está tão tristim!” Mamãe imediatamente achou que eu estava querendo alguma coisa e perguntou: “Quer feijão?”

EU QUERO É BROA

Tem duas coisas que mamãe não gosta: viajar de carro (porque tem medo de acidente) e almoçar em restaurante de estrada durante a viagem (o motivo: não quer gastar dinheiro e nem quer que a gente gaste). Numa viagem de carro de retorno de Natal para Juazeiro, vinham Daniel, Neuma, papai e mamãe. Ao chegarem em Pombal (PB), Daniel errou o caminho e seguiu viagem na direção de Patos  e Campina Grande (PB). Lá pra frente notou que estava errado e se distanciando do destino. Como já era mais ou menos o meio dia, e estavam com fome, ele resolveu parar no primeiro restaurante que apareceu. Ao sentarem-se na mesa, Daniel irritado com a mancada e com o atraso da viagem, perguntou a mamãe: “E aí mamãe, o que a senhora vai querer para almoçar?” Mamãe prontamente respondeu: “Eu quero é broa!” Daniel um pouquinho mais irritado, contestou. “Que broa, Mamãe? A gente vai demorar a chegar em Juazeiro, está todo mundo com fome, e a senhora vem dizer que quer almoçar broa!”

MENSAGENS RECEBIDAS
Pessoas especiais deixam marcas que fazem a vida realmente valer a pena, meus avós foram muito felizes e souberam como ninguém repartir essa felicidade, lembranças muito boas e alegres!!!
Michel Macedo, Crato, Ceará

Hoje cedo postei também no blog Antonio Luiz Macêdo e no Recanto das Letras homenagens às mães. você, como mãe, está  incluída. A homenagem da sua coluna tá arretada. Pense! Parabéns!
Antonio Luiz Macedo, Fortaleza, Ceará

Mais uma vez quero parabenizá-la pelos artigos escritos. Primeiramente a linda homenagem feita a D. Toinha e agora recentemente pelo Dia das Mães e o Mês de Maio, Mês de Maria. Adorei todos. Homenagens mais do que merecidas.
Marleide Guimarães, Fortaleza, Ceará


domingo, 13 de maio de 2012

Dia das mães, dia de homenagens



Como hoje o dia é dedicado às mães do mundo inteiro, aproveito a oportunidade e apresento-lhes minhas três mães: a que me deu a vida, que me trouxe à luz, Zeneida (mulher que pacientemente com o seu espírito de mulher guerreira e temente a Deus suportou galhardamente os infortúnios que a vida lhe reservou); Munda (Raimunda) que cuidou de mim e dos meus irmãos quando mamãe ficou viúva e não pôde dar aos seis filhos a necessária assistência devido a depressão que a acometeu com a morte do meu pai; e  dona Maria, minha sogra, que me deu muitos ensinamentos com relação a uma convivência feliz no casamento e que me adotou  como uma verdadeira filha. A elas que já partiram para uma outra vida, a vida celestial, dedico-lhes o meu eterno amor. No caso particular de minha sogra, manifesto minha homenagem através de uma forma prazerosa e engraçada que fui buscar no opúsculo intitulado Histórias de Almeidinha, com que meu cunhado, Carlos Alberto, presenteou sua mãe e minha sogra por ocasião dos seus noventa anos e cuja capa é mostrada na foto abaixo. Pouca gente conhecia o lado humorística dela, das coisas engraçadas que dizia, das gafes que inocentemente, sem nenhuma maldade ela cometia. Relato duas gafes contadas por Carlos Alberto as quais serviram de muita gozação e de muitas risadas por parte de seus familiares.

                                                       O TIRO NA IGREJA
            
             Mamãe e Ozenir (minha esposa) estavam assistindo à missa do final da tarde no interior da igreja do Socorro. A igreja estava cheia e elas estavam em pé, atrás da última fileira de bancos. Eis que, em um dado momento, mamãe ouviu um som, tipo um grito lamentoso. Assustada, imediatamente mamãe gritou: “É tiro!”, e saiu correndo na direção da praça. Ozenir, sem entender o que houve, saiu também correndo atrás dela. Rapidamente, elas notaram que ninguém as seguia. Elas estavam correndo sozinhas. Foi então que mamãe parou, virou-se para Ozenir e falou ofegantemente: “Você não ouviu?... Para mim era um tiro”. Ozenir, então, rindo sem controle, disse-lhe que foi apenas um pobre velhinho que sofreu um ataque de epilepsia, caiu do banco e ficou se contorcendo de dor. Após a explicação, não deu mais para elas voltarem para a igreja e seguiram rindo, baixinho, para casa.
                                                 
                                                         A TROUXA

                No final de dezembro de 1973, meus pais, Ozenir, Jorge Luiz, Lou e Zé  Maria foram a Recife assistir à minha formatura. Ficamos todos no apartamento de Lilia, minha cunhada. Nesse tempo, eu já estava casado com Ozenir e ela estava morando com meus pais em Juazeiro. Ficou planejado que, após a formatura, todos voltariam para Juazeiro  e Ozenir ficaria morando comigo em Recife. Mas não deu certo, e Ozenir teve que voltar.
                 Então, estávamos todos na Rodoviária de Recife, naquele clima de tristeza, normal de despedida, mas agravado pelo fato de que os planos não tinham dado certo. Não tínhamos conseguido passagem no mesmo ônibus para todos e papai teve que ficar para ir em outro ônibus, que sairia duas horas depois. O quadro era esse: mamãe, Ozenir, Lou, Jorge Luiz e Zé Maria no interior do ônibus. Ozenir numa cadeira da janela numa indisfarçável tristeza, mamãe noutra cadeira, de frente, também na janela, triste e preocupada porque papai viajaria sozinho. Eu e papai ficamos na plataforma de embarque, conversando e aguardando a saída do ônibus, junto com várias outras pessoas. Papai ficou de levar como bagagem apenas um saco de pano com algumas peças dentro. E como sempre foi despreocupado, o saco estava no chão, ao seu lado. Mamãe, temendo que papai esquecesse  volume, gritou de dentro do ônibus: “Zeca segura a trouxa”. E, achando que papai não tinha ouvido, gritou: “Ô, Zeca, não esquece de trazer a trouxa”.  Foi uma gargalhada geral, por parte dos passageiros e das pessoas que estavam perto de nós na plataforma de embarque, pois em Pernambuco, como no Ceará, trouxa além de ser um saco de roupas, é também mais uma denominação do órgão genital masculino.

Carlos Alberto tem catalogada quase uma centena de “causos” com dona Maria Almeida e no opúsculo de estréia ele escreveu o seguinte:

Neste dia em que comemoramos os noventa anos de idade de mamãe, quero prestar-lhe uma homenagem diferente. Resolvi relatar algumas das noventas historinhas curiosas que têm mamãe como protagonista e as quais eu presenciei ou ouvi contar. Em todas essas passagens, podemos identificar traços característicos de sua personalidade. Fazendo uso da intimidade de que possuo como filho, posso enfatizar essas características que somadas às suas infinitas qualidades, constituem um conjunto harmonioso que a torna uma pessoa extremamente especial. Procurei desde o início achar uma palavra que resumisse todas as suas qualidades e características, mas não encontrei. Portanto, para mim ela é simplesmente Especial.
            Mamãe, além de ser a melhor mãe do mundo, é também muito boa como esposa, avó, bisavó, sogra, cunhada e amiga. É amorosa, dedicada, compreensiva, tolerante, pacificadora, conselheira, atenciosa, tem boa conversa, religiosa, trabalhadeira, boa cozinheira, pessimista, assustada, não gosta de festa, não gosta de fazer aniversário, não gosta de viajar de carro, tem medo de água, gosta de  novela, sempre quis ter na casa (sendo uma para uso e uma de enfeite) duas cozinhas, dois banheiros, duas salas, gosta de fazer renovação e gosta de broa.
             Nas histórias a seguir podemos identificar várias dessas suas características.
Na  sequência: eu com mamãe, Munda e dona Maria.